A criação de vestibular indígena, hospitais mais próximos das aldeias e valorização dos saberes tradicionais estão entre as principais reivindicações
(Foto: Jeiza Russo)
Representantes indígenas do Amazonas denunciaram a ausência de políticas públicas voltadas à educação e saúde mental da juventude indígena durante roda de conversa realizada pelo Ministério Público do Amazonas (MPAM) na manhã desta quinta-feira (7).
Entre as principais demandas apresentadas estão a criação de vestibulares indígenas, políticas de permanência universitária, melhorias na saúde diferenciada e investimentos em educação no interior do estado.
A coordenadora do Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas (Meiam), indígena Isabel Munduruku destacou que os jovens indígenas enfrentam dificuldades estruturais ao deixarem seus territórios para estudar em Manaus..
“A juventude indígena do Amazonas é muito diversa e está organizada de diferentes maneiras. Quando a gente fala da educação para a juventude indígena, principalmente para quem está no ensino superior, a gente fala também das dificuldades de moradia e da ausência de políticas públicas específicas. Manaus não tem estrutura para receber essa população que migra por necessidade. Isso gera impactos emocionais, financeiros e culturais muito fortes para os jovens indígenas”, afirmou.
Isabel também ressaltou que o Amazonas ainda não possui vestibular indígena, pauta histórica defendida pelos movimentos estudantis e que ajudaria milhares de jovens a acessarem a universidade.
“O Amazonas concentra o maior número de indígenas no ensino superior, mas não possui vestibular indígena. Muitos jovens precisam migrar para outros estados para conseguir estudar. Isso provoca evasão dos territórios e afeta diretamente a saúde mental da juventude indígena. A gente vive um processo muito violento de suicídio da juventude indígena. Por isso, defendemos políticas afirmativas, moradia estudantil e condições reais de permanência nas universidades”, disse.
Ela também disse que a presença indígena nas universidades é estratégica para fortalecer direitos históricos dos povos originários e que devem fazer a manutenção da cultura dentro desse processo.
“Quando a juventude indígena ocupa as universidades, a gente fortalece os direitos dos povos indígenas. Estamos falando do presente e do futuro das nossas comunidades. Hoje, as políticas públicas ainda são insuficientes para garantir a nossa existência e dignidade. O Estado precisa dialogar com o movimento indígena e entender as problemáticas que atravessam a juventude indígena”.
Durante o encontro, o tuxaua Ara, da etnia Mura de Autazes (112 quilômetros de Manaus) apontou uma série de reivindicações dos povos indígenas do municípios. Segundo ele, até o acesso à água potável é restrito. “Tem diversas comunidades dentro do municípios que não conseguem acesso a água potável. Já falamos com a Prefeitura, que visita os locais bem rápido para fingir que não é com eles. Não temos poços de qualidade e nem acesso direto à água”.
Na lista de pedidos feitos pelas comunidades estão a criação de um núcleo educacional com extensão do Instituto Federal do Amazonas (IFAM) em Autazes, implantação de escola de tempo integral, além da reativação de uma Unidade Básica de Saúde voltada ao atendimento indígena.
O tuxaua também cobrou a construção de um hospital de emergência que atenda os municípios de Autazes, Manaquiri, Careiro Castanho, Nova Olinda do Norte e Borba. Segundo ele, a demora para chegar em outros locais de atendimento tem ocasionado a morte dos povos originários.
“O hospital de emergência é necessário porque muitos indígenas morrem antes mesmo de chegar no município ou em Manaus. A viagem é longa e deveria ter uma unidade nas proximidades, atendendo pelo menos cinco municípios. Nem todos os povos conseguem acolhimento pelo DSEI ou pela Sesai, e isso dificulta ainda mais o atendimento para quem mora distante”, afirmou.
Na área da saúde, apresentado pelo Conselho Municipal de Saúde de Manaus está o pedido pela liberdade religiosa, conforme foi apontado dentro da roda de conversa, há barreiras culturais impedindo que pajé e tuxauas exerçam liberdade religiosa dentro das unidades. “Padres e pastores podem entrar nos hospitais para fazer oração, mas nós indígenas não temos o direito de levar o pajé para fazer uma pajelança ou uma reza”, apontaram durante os debates.
O procurador da República Fernando Merloto Soave afirmou que os órgãos públicos ainda precisam adequar as políticas públicas à realidade dos povos indígenas e valorizar os saberes tradicionais.
“O povo indígena não tem que se adequar à política pública. É a política pública que tem que se adequar ao povo indígena. Quando isso não acontece, gera muitos problemas, inclusive mortes. A educação que não respeita a cultura indígena e a falta de acolhimento também provocam sofrimento e suicídios. Precisamos de um olhar diferenciado para educação, saúde e cultura indígena, além de uma atuação mais próxima dos órgãos públicos junto a esses povos”, afirmou.